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domingo, 11 de março de 2007

CHARQUEADA BARÃO DE BUTUÍ

Cíntia Essinger, 2006


Pude visualizar a antiga casa da charqueada do Barão de Butuí de três formas.
Meu primeiro olhar para sua beleza e seu abandono se deu através da margem oposta do arroio Pelotas, na antiga charqueada de Boaventura Rodrigues Barcellos. A casa amarela de Boaventura abre-se para uma espécie de prainha, um ancoradouro. Dali pude observar a Butuí, do outro lado, sozinha, abandonada, ensolarada. Lembro que me parecia mais bela do que só.
Outro dia, num passeio de barco pelas águas do arroio, o abandono me pareceu mais evidente. Uma parte do telhado, que eu não havia enxergado do outro lado do arroio, encontrava-se desmoronada. Mas a surpresa que ela causou durante o passeio, aparecendo de repente por entre a mata, logo depois de uma das tantas curvas que faz o Pelotas, ficou na memória de forma mais forte do que a visão triste de seu abandono e de seu declínio.
Então chegou o dia em que iríamos por terra ao encontro de Butuí. Tudo era incerto. A propriedade vaga não nos ofereceria ninguém que pudesse nos autorizar a entrar. Nem sequer sabíamos como fazer para chegar a ela... eu apenas sabia, por ter olhado na imagem de satélite, em que altura da avenida deveríamos entrar para uma estradinha de chão. Percorremos alguns quilômetros por aquela estrada, antes apenas observada na foto, e agora vista em sua plenitude de buracos e de pó. Chegamos a um local que faz exploração do terreno e retira areia para construção. Ninguém à vista. Parecia o fim do caminho... Um trator aproximou-se, nos causando um misto de medo com ansiedade... O rapaz nos explicou que poderia nos conduzir até a porteira, mas que o pessoal "de lá" não gostava que entrassem. Seguimos o trator. Depois de passarmos por uma estrada estreita, margeando a grande piscina que resta da atividade de retirada da areia, ele nos apontou uma porteira e disse que dali seguiríamos e acharíamos a casa. O motorista abriu a porteira, passou o carro e a fechou. O coração batia forte: veríamos afinal, de perto, Butuí. E batia também de receio: não havíamos avisado ninguém, e "o pessoal de lá" não gostava que estranhos entrassem por lá... Quase não havia estrada definida. Apenas nos guiávamos pelo capim mais baixo e pela clareira entre as árvores. Pareceu um tempo imenso desde a entrada na porteira até que por fim vimos o telhado da casa. Lá está! Paramos a uma certa distância. Descemos do carro procurando por alguém que viesse tomar satisfações. Ninguém. Silêncio total. Nem mesmo um cusco veio nos receber. Eu imaginava que a qualquer momento apareceria alguém insatisfeito com a nossa presença. Andamos em direção a casa. Tudo quieto. Tudo abandonado. Um anexo nos fundos, que supomos terem sido peças de serviço, estava desmoronado. Apenas percebíamos vestígios do que um dia havia sido. As portas e janelas fechadas, mas violadas. Espiando pela fenda na porta principal o flash da máquina revelou a casa vítima dos vândalos. As paredes completamente escritas, desenhadas e pixadas. Um resto de fogueira num canto, que marcou a parede e o piso. O piso de ladrilhos hidráulicos testemunhando seus antigos luxos. O assoalho do segundo piso em ruína.
A imagem da casa idealizada por todos nós estava sendo desfeita. O abandono e o vandalismo tornaram-na vítima do tempo.
Fotografamos a casa por todos os ângulos, como se quiséssemos mantê-la para sempre conosco. E fomos embora. Deixando-a para trás e criticando o abandono. Sentindo-nos impotentes perante o abandono que pouco a pouco nos deixa sem memórias.

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O que são arquiteturas do abandono?

As arquiteturas do abandono compreendem desde edificações desabitadas, ruínas, restos de construção como também favelas, resíduos, sujeitos excluídos e tudo que até o desprendimento da matéria poderá nos levar a sentir e a pensar.
Num primeiro momento, apenas uma casa abandonada, em qualquer lugar, vizinha a tantas outras, nossa vizinha. Por ela, passamos todos os dias, caminhamos pela rua, a qual também acumula a sujeira, os restos, o capim. Tudo ao redor dessa casa, saindo pelas frestas, ruindo o reboco. A casa lar que antes abrigava uma família, agora se abre aos desabrigados, aos vagabundos, aos bandidos. Abandona-se ao bando.
Uma fábrica abandonada ou uma fábrica que abandonou muitos, uma enorme massa construída, onde o trabalho parou, mas sente-se ainda o movimento dos operários e o som das máquinas. Das máquinas enferrujadas que não produzem mais nada, apenas as carcaças envoltas em teias de aranha, recoberta por muita poeira. A poeira que entra pela boca, que resseca, que nos cega a vista, que esfuma. Fábrica abandonada por todos, mas que deixa toda a sujeira para trás, dos restos radioativos que podem provocar doenças, até os resíduos que servem de ganha pão para outros. Tudo arruinando e curando: fábrica, máquinas, resíduos, pessoas.
Todo o resíduo e entulho podem escorrer, migrar de um lugar para outro, pingar, deixar-se levar, contaminar o que não é abandonado, assim como o movimento de abandonar, de deixar alguma coisa em detrimento de outra. No edifício, a função vai embora e fica a forma abandonada.
Matar ou curar. Finito e infinito ao mesmo tempo. O tempo dos abandonos pode ser longo como o de uma ruína ou rápido como o de uma implosão. Difícil de ser medido e quantificado. Tudo pode ocorrer numa fração de segundos ou lentamente, como se não passasse de uma longa espera. Abandonar é largar a deterioração ao apodrecimento, ao mofo.
Também um resto de parede que teima em ficar de pé, que teima em permanecer. Mesmo com a chuva e o vento que lavam, dentro e fora, teimem em abatê-la. Uma ruína, um resto arruinado, não aquela ruína histórica, mas uma ruína fruto da supressão da própria história. Uma superfície arenosa e abandonada, transformada em deserto em meio à vida cotidiana das cidades.
Uma cidade é repleta de abandonos, por todos os lados, e de abandonados também. Eles estão ali perambulando pelas ruas, pelas calçadas, adentrando edifícios abandonados, encontrando-se, cara a cara conosco, Ás vezes desviamos, pulamos sobre eles, os abandonados cheiram mal, faltam-lhes dentes, e todos os objetos de consumo que tanto ansiamos.
O campo de ação das arquiteturas do abandono é amplo e, muitas vezes, caótico, abarca a matéria e a imatéria. Abandonamos materialidades, prédios, ruínas, restos, objetos, coisas, tudo o que possamos tocar, roubar, quebrar ou assassinar. Tudo muito elementar, muito óbvio.
No entanto, abandonos são também imateriais, do campo, do que não podemos mensurar. O abandono imaterial é do campo dos sentidos, dos desejos ou das sensações. Só há abandono material, porque há abandono imaterial, um se alimenta do outro. É corpo, é alma. As arquiteturas materiais do abandono podem ser as forças que nos sacodem para os abandonos imateriais. Como nas artes visuais ou na música, que atravessam nossos corpos. Abandonos também são capazes de desencarnar dos corpos arquitetônicos e habitar a fronteira, o escape, a fuligem.
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