Pude visualizar a antiga casa da charqueada do Barão de Butuí de três formas.
Meu primeiro olhar para sua beleza e seu abandono se deu através da margem oposta do arroio Pelotas, na antiga charqueada de Boaventura Rodrigues Barcellos. A casa amarela de Boaventura abre-se para uma espécie de prainha, um ancoradouro. Dali pude observar a Butuí, do outro lado,
sozinha, abandonada, ensolarada. Lembro que me parecia mais bela do que só.
Outro dia, num passeio de barco pelas águas do arroio, o abandono me pareceu mais evidente. Uma parte do telhado, que eu não havia enxergado do outro lado do arroio, encontrava-se desmoronada. Mas a surpresa que ela causou durante o passeio, aparecendo de repente por entre a mata, logo depois de uma das tantas curvas que faz o Pelotas, ficou na memória de forma mais forte do que a visão triste de seu abandono e de seu declínio.
Então chegou o dia em que iríamos
por terra ao encontro de Butuí. Tudo era incerto. A propriedade vaga não nos ofereceria ninguém que pudesse nos autorizar a entrar. Nem sequer sabíamos como fazer para chegar a ela... eu apenas sabia, por ter olhado na imagem de satélite, em que altura da avenida deveríamos entrar para uma estradinha de chão. Percorremos alguns quilômetros por aquela estrada, antes apenas observada na foto, e agora vista em sua plenitude de buracos e de pó. Chegamos a um local que faz exploração do terreno e retira areia para construção. Ninguém à vista. Parecia o fim do caminho... Um trator aproximou-se, nos causando um misto de medo com ansiedade... O rapaz nos explicou que poderia nos conduzir até a porteira, mas que o pessoal "de lá" não gostava que entrassem. Seguimos o trator. Depois de passarmos por uma estrada estreita, margeando a grande piscina que resta da atividade de retirada da areia, ele nos apontou uma porteira e disse que dali seguiríamos e acharíamos a casa. O motorista abriu a porteira, passou o carro e a fechou. O coração batia forte: veríamos afinal, de perto, Butuí. E batia também de receio: não havíamos avisado ninguém, e "o pessoal de lá" não gostava que estranhos entrassem por lá... Quase não havia estrada definida. Apenas nos guiávamos pelo capim mais baixo e pela clareira entre as árvores. Pareceu um tempo imenso desde a entrada na porteira até que por fim vimos o telhado da casa. Lá está! Paramos a uma certa distância. Descemos do carro procurando por alguém que viesse tomar satisfações. Ninguém. Silêncio total. Nem mesmo um cusco veio nos receber. Eu imaginava que a qualquer momento apareceria alguém insatisfeito com a nossa presença. Andamos em direção a casa. Tudo quieto. Tudo abandonado. Um anexo nos fundos, que supomos terem sido peças de serviço, estava desmoronado. Apenas percebíamos vestígios do que um dia havia sido. As portas e janelas fechadas, mas violadas. Espiando pela fenda na porta principal o flash da máquina revelou a casa vítima dos vândalos. As paredes completamente escritas, desenhadas e pixadas. Um resto de fogueira num canto, que marcou a parede e o piso. O piso de ladrilhos hidráulicos testemunhando seus antigos luxos. O assoalho do segundo piso em ruína.
A imagem da casa idealizada por todos nós estava sendo desfeita. O abandono e o vandalismo tornaram-na vítima do tempo.
Fotografamos a casa por todos os ângulos, como se quiséssemos mantê-la para sempre conosco. E fomos embora. Deixando-a para trás e criticando o abandono. Sentindo-nos impotentes perante o abandono que pouco a pouco nos deixa sem memórias.
Meu primeiro olhar para sua beleza e seu abandono se deu através da margem oposta do arroio Pelotas, na antiga charqueada de Boaventura Rodrigues Barcellos. A casa amarela de Boaventura abre-se para uma espécie de prainha, um ancoradouro. Dali pude observar a Butuí, do outro lado,
Outro dia, num passeio de barco pelas águas do arroio, o abandono me pareceu mais evidente. Uma parte do telhado, que eu não havia enxergado do outro lado do arroio, encontrava-se desmoronada. Mas a surpresa que ela causou durante o passeio, aparecendo de repente por entre a mata, logo depois de uma das tantas curvas que faz o Pelotas, ficou na memória de forma mais forte do que a visão triste de seu abandono e de seu declínio.
Então chegou o dia em que iríamos
A imagem da casa idealizada por todos nós estava sendo desfeita. O abandono e o vandalismo tornaram-na vítima do tempo.
Fotografamos a casa por todos os ângulos, como se quiséssemos mantê-la para sempre conosco. E fomos embora. Deixando-a para trás e criticando o abandono. Sentindo-nos impotentes perante o abandono que pouco a pouco nos deixa sem memórias.
Um comentário:
O único comentário que me vem à cabeça é: Que tristeza...ah! ..E quem será o dono...?
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