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quarta-feira, 14 de março de 2007

SOB VIADUTOS

Fernando Fuão

" Não ter onde ir é uma forma de sempre chegar." Carpinejar

Pontes ou viadutos são elementos que conectam uma ideía a outra, um tempo a outro, transportam. São elementos que estabelecem ligações, laços. São passagens. O lugar do encontro, da travessia.
Diz a mitologia que elas são um simbolo que se expressa materialmente por sua horizontalidade, mas que tem um significado plenamente vertical. O plano da travessia horizontal, de um lado a outro, define o passado, presente e futuro. O plano vertical define a travessia transcendental do ser. O acima: refere-se ao ascendente, ao celestial, e o abaixo: o descendente, os planos inferiores, o proprio inferno.
A ponte, o viaduto ou a escada equivalem exatamente ao pilar axial que une o céu a terra, e os diferenes estados do ser. É por eles que se dão as comunicações a passagem das mensagens e a circulação no espaço.
Os viadutos estão impregnados dessas mitologias, dessas falsas crenças, desses conceitos negativos. A sociedade em geral teme o que se encontra ou se aloja sob eles que nem chegam perto. Infelizmente acreditamos que os seres que habitam em sua parte inferior estão em niveis inferiores em todos os sentidos da existência e dos estados da alma. Mas é tudo ao contrário.
Quanto mais me aproximo desses espaços mais me surpreendo com suas potencialidades e revelações. Muito me debrucei sobre eles para pensá-los, cheguei a comparar as pontes a figura de São Cristovão, a metáforas, e até mesmo fiz a analogia com a cola na collage como aquele elemento que conecta um espaço ao outro, uma figura a outra, o lugar dos encontros.
Ví os viadutos como a solucão aos transportes dos abismos, dos canyons. Acho que sempre vi as pontes lá de cima, de sua superioridade, ou melhor: sua superficialidade. Sem nunca descer aos abismos antes, nunca pude sua verdadeira dimensão, sua profundidade. Curiosamente a simbologia sobre pontes e ou viadutos pouco ou quase nada fala das pessoas que vivem sob elas.
Minha formação de arquiteto também nunca me permitiu compará-las aos seres humanos, fazer das pessoas: pontes, seres que transportam, conectam. Enfim, mensageiros, aproximando-me ao que Michel Serres entendeu como os novos anjos.
Evidente que anjos não existem, mas as pessoas que vivem sobre as pontes ou embaixo dos viadutos sim, tal como os anjos eles possuem o atributo da universalidade, da collage, de agrupar fragmentos, reagrupar pessoas, formar comunidades e organizar esse (i) mundo, recolhendo e classificando o lixo da sociedade produtivista.
Essas pessoas "humanas demasiadamente humanas" entrecruzam o passado, o presente e futuro. Seu poder de sensibilizar a sociedade está exatamente em sua capacidade de unir o que foi separado pelo materialismo, de transpor as dificuldades os abismos.
O abismo é a erosão interminável da desumanização lavrada pela exploração do homem pelo homem, pelas forças capitalismo, pela barbárie interior. Enfim, esse processo doentio viral que obriga o homem a mutilar sua visão, cegar--se ante a impotencia de ajudar ao próximo, de mudar as coisas, o mundo.
Foi alí, sob o viaduto da Conceição em Porto Alegre no inicio de uma noite veloz, fria, muito fria de inverno, que vi alguns anjos entre os escombros de centenas de sacos de lixo, trabalhando frenéticamente sobre uma tênue luz incandescente. Foi alí, que me foi anunciada a Associação Catador Novo Cidadão e seu representante: Matias.
Sempre achei que era em sua parte superior, em sua superficie que se davam os encontros. Hoje, tenho apreendido mais embaixo deles, do que sobre ele. Mais uma vez elas me mostram algo novo, o inusitado.
Chamo esses catadores de anjos, mensageiros, não porque possuam algum vínculo religioso, ou algum atributo divino, mas porque conseguem de uma forma ou de outra viajar no tempo, transpor os espaços, as paredes e até as muralhas da Universidade.
Aparentemente, nada está fechado para eles, são moradores de rua, chegam sem ser esperados e proliferam-se na medida em que a enfermidade social se abatte sobre eles. Na realidade, tudo está fechado para eles, vivem na eterna exclusão, abandonados e seu território de atuação não passa mesmo de um campo de concentração.Mas o que anunciam esses novos mensageiros em sua rápida aparição? Anunciam a novidade, aquilo que os outros não conseguem ver: a revelação.
Em agosto de 2004, tivemos a satisfação de ter Dona Marlene articipando da Mesa Redonda sobre "Arquitetura e Cidadania" na Faculdade de Arquitetura (UFRGS), sua presença e seu depoimento foram contundentes para sensibilizar uma dezena de estudantes e alguns professores que alí se faziam presentes. Este evento foi o primeiro passo de uma longa caminhada que temos de percorrer para encontrar o real sentido de existir uma Faculdade Pública de Arquitetura. Acreditamos que, colocar no mundo arquitetos que só sabem projetar para as elites econômicas e culturais há muito perdeu o sentido. As faculdades só tem despejado técnicos, profissionais incapazes de refletir sobre sua propria condição profissional e principalmente do mundo que o cerca.
As Universidades grosseiramente tem produzido engrenagens para o sistema produtivista, soldadinhos intelectuais que continuam a reproduzir o sistema de inclusão e exclusão. Como disse a arquiteta Carolina Galeazzi, presente naquele momento: "Arquitetura sempre foi a arte do estabelecimento de relações ricas entre as N dimensões humanas dentro do ambiente. Um padre e uma catadora de lixo nos lembraram disso. Nas últimas décadas fizemos pouco mais do que achar a arquitetura de nossa cidade e de nossos colegas brasileiros um lixo. A catadora profissional Marlene da ACNC tem muito mais consciência do seu papel na cadeia humana produtiva e ecológica. A postura da nossa Faculdade de Arquitetura não é sustentável, ou muda ou fecha".
A representação desses mensageiros é rápida, seus corpos anunciam e denunciam tudo num piscar de olhos, sopram nos ouvidos as verdadeiras mudanças, e tornam a desaparecer. Na verdade eles vem para revelar-nos o avesso do mundo, a vida nua, que a maioria dos estudantes e professores desconhecem, e o fazem com uma dignidade que nenhum ser vivente é capaz de esquecer .
Matias cintila de idéias a cada amanhecer, sua consciencia social e ambiental se traduz em vários projetos, um deles é o projeto dos containers para organizar o lixo seco (garrafas, papeis, latinhas) do campus central da Universidade, que os catadores poderiam recolher depois. Mas a "universidade" está com suas portas lacradas ainda, não conhece o que é consciência ambiental, social. e muito menos de seu papel transformador. Ironicamente, tanto os alunos como os professores e funcionários ainda não apreenderam a separar o lixo, e de seu valor para os catadores.É hora de re-imaginar o papel da Universidade, de uma universidade sem condições, universal. A "univercidade" é cidade de todos e para todos.
Durante o segundo semestre de 2004, dentro da disciplina de Projeto 7, resolvemos trabalhar com uma "arquitetura sem condições", abrimos temas de relevância social para serem desenvolvidos pelos alunos como: cozinhas comunitárias, habitação para moradores de rua, albergues, abrigos, palafitas, creches, Galpões de triagem de lixo, e tudo isso para clientes de corpo e alma.
Ao final do semestre consideramos essa atitude uma grande vitória dentro de uma Faculdade que estava acostumada só a projetar museus, centro culturais, apartamentos duplex para o mecado imobiliario, entre outras "cositas" não muito dignas de serem citadas, para não ofender aos colegas.
Estavamos fechados em nosso mundinho preocupados muito mais com a aparência formal de uma arquitetura elitista, preocupados de estar ao par da moda artquitetônica importada, do que enfrentar a dura realidade que se vislumbra pelas ruas de nossa cidade principalmente com os catadores e seus carrinhos. Assim, resolvemos trabalhar efetivamente com clientes que necessitam de nosso trabalho mas não tem recursos para pagar.
É intolerável dentro de uma Universidade Pública não estimular essa cooperação, estudar esses problemas de uma forma séria. Nossos alunos e professores tem um compromisso social enquanto profissionais e educadores, e é enquanto presente dentro da Universidade que se pode dar essa contribuição.
Sob o viaduto protetor as coisas acontecem. Recentemente a aluna e pesquisadora Fernanda Schan, que desenvolvia o projeto para a Comunidade Catador Novo Cidadão (habitações, creche, cozinha comunitaria, galpão de triagem) juntamente com Michele Rainman e Daniela Vieira da Silva, em um terreno da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, foi uma das vencedoras do Concurso Nacional da Caixa Economica Federal para moradia de baixo custo. Excluidos que catam, limpam, misturam-se na grande collage lixo, se impregnam da lixivia mundi.Esses são os verdadeiros anjos dentre os falsos anjos e deuses tecnologicos que nos apresentam a sociedade comunicacional do espetáculo.
É, o viaduro é o lugar da provação, mas também da provocação.As partes de baixo de todos os viadutos -esses espaços degradados, sem dominio, terra de ninguem, promotores da violência- como propôs lucidamente o querido Irmão Ceccin deveriam ser de uso público, destinados a projetos sociais de habitação, promotores de renda e resgate da dignidade dos moradores de rua.Uma forma de inclusão dentro da exclusão, uma forma de minimizar os campos de concentração que a biopolitica criou expulsando para as periferias os pobres, tal como acabou-se estabelendo os campos do 3ª e 4º mundo.Essa ocupação dos viadutos deveria dar-se como uma sacra estratégia de guerra: ocupando esses espaços vazios sinistros, minando suas bases e seus pilares de vida, renovando e recheando-os de humanidade, costurando suas margens e revendo os sentidos da cidade.
Devemos ter em mente que o arché da criação das cidades é a felicidade de todos os seus habitantes..É o viaduto que organiza, classifica, significa, reinventa o sentido da existência.Sua dupla função de piso e cobertura revela a lógica do sentido da exclusão.O temor que ele é um lugar horrivel e arrepilante evidentemente não ajuda a aproximar as pessoas que por ele passam, e talvez exatamente por isso que eles sentem-se seguros embaixo deles .O viaduto é o lugar atávico dos moradores de rua. Nele, os sem teto encontram seu teto, sua proteção. Nele, também acontece tudo de bom, ele é o abrigo, a morada, o trabalho, a festa e a celebração como tem provado esses ultimos meses a ACNC.
A sociedade joga fora toda sujeira, exclui aquilo que não quer ver nem sequer sentir seu cheiro, despeja nas periferia, ou esconde embaixo do tapete, ou melhor: embaixo do viaduto, tudo aquilo que é asquerosamente improdutivo, como o lixo, a poeira, o cinza. Não podemos esquecer que históricamente é o pobre, o miserável quem sempre lavou a latrina mundi do poder. E, entre lixo e miséria existe uma simbiose secular que deve ser rompida urgentemente nem que seja a força.Como disse Michel Serres: "Os mensageiros do terceiro e do quarto mundo: a miséria, revela-nos uma existência e um tempo fundamentais que a história jamais ensinou. Mais que pobres e indigentes, os miseráveis correm o risco de ver destruída, neles e ao seu redor, por esta terrivel agressão, a propria humanidade. Só se tornaria um homem aquele que enfrentasse o risco da destruição, nele próprio, da humanidade. O essencialmente humano é chamado arcanjo: arché significa de fato, o principio e o inicio. Nascidos da miséria, a ele voltaremos, todos." Viva as pessoas que trabalham sob as pontes, os que moram, e os que jazem sob elas. Esses anjos ultra, ultra modernos de asas de papelão, e que carregam dentro das garrafas PET, a mensagem do aparecimento de uma arquitetura nova, nua, verdadeira, sem afetação.

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O que são arquiteturas do abandono?

As arquiteturas do abandono compreendem desde edificações desabitadas, ruínas, restos de construção como também favelas, resíduos, sujeitos excluídos e tudo que até o desprendimento da matéria poderá nos levar a sentir e a pensar.
Num primeiro momento, apenas uma casa abandonada, em qualquer lugar, vizinha a tantas outras, nossa vizinha. Por ela, passamos todos os dias, caminhamos pela rua, a qual também acumula a sujeira, os restos, o capim. Tudo ao redor dessa casa, saindo pelas frestas, ruindo o reboco. A casa lar que antes abrigava uma família, agora se abre aos desabrigados, aos vagabundos, aos bandidos. Abandona-se ao bando.
Uma fábrica abandonada ou uma fábrica que abandonou muitos, uma enorme massa construída, onde o trabalho parou, mas sente-se ainda o movimento dos operários e o som das máquinas. Das máquinas enferrujadas que não produzem mais nada, apenas as carcaças envoltas em teias de aranha, recoberta por muita poeira. A poeira que entra pela boca, que resseca, que nos cega a vista, que esfuma. Fábrica abandonada por todos, mas que deixa toda a sujeira para trás, dos restos radioativos que podem provocar doenças, até os resíduos que servem de ganha pão para outros. Tudo arruinando e curando: fábrica, máquinas, resíduos, pessoas.
Todo o resíduo e entulho podem escorrer, migrar de um lugar para outro, pingar, deixar-se levar, contaminar o que não é abandonado, assim como o movimento de abandonar, de deixar alguma coisa em detrimento de outra. No edifício, a função vai embora e fica a forma abandonada.
Matar ou curar. Finito e infinito ao mesmo tempo. O tempo dos abandonos pode ser longo como o de uma ruína ou rápido como o de uma implosão. Difícil de ser medido e quantificado. Tudo pode ocorrer numa fração de segundos ou lentamente, como se não passasse de uma longa espera. Abandonar é largar a deterioração ao apodrecimento, ao mofo.
Também um resto de parede que teima em ficar de pé, que teima em permanecer. Mesmo com a chuva e o vento que lavam, dentro e fora, teimem em abatê-la. Uma ruína, um resto arruinado, não aquela ruína histórica, mas uma ruína fruto da supressão da própria história. Uma superfície arenosa e abandonada, transformada em deserto em meio à vida cotidiana das cidades.
Uma cidade é repleta de abandonos, por todos os lados, e de abandonados também. Eles estão ali perambulando pelas ruas, pelas calçadas, adentrando edifícios abandonados, encontrando-se, cara a cara conosco, Ás vezes desviamos, pulamos sobre eles, os abandonados cheiram mal, faltam-lhes dentes, e todos os objetos de consumo que tanto ansiamos.
O campo de ação das arquiteturas do abandono é amplo e, muitas vezes, caótico, abarca a matéria e a imatéria. Abandonamos materialidades, prédios, ruínas, restos, objetos, coisas, tudo o que possamos tocar, roubar, quebrar ou assassinar. Tudo muito elementar, muito óbvio.
No entanto, abandonos são também imateriais, do campo, do que não podemos mensurar. O abandono imaterial é do campo dos sentidos, dos desejos ou das sensações. Só há abandono material, porque há abandono imaterial, um se alimenta do outro. É corpo, é alma. As arquiteturas materiais do abandono podem ser as forças que nos sacodem para os abandonos imateriais. Como nas artes visuais ou na música, que atravessam nossos corpos. Abandonos também são capazes de desencarnar dos corpos arquitetônicos e habitar a fronteira, o escape, a fuligem.
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