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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ARQUITETURAS DO ABANDONO POR NEWTON FINATO



Foto 14 é um gritante contraste entre os “poderes”. (amigo vs. MC Donald’s).

Pena que na época não soube explorar melhor essa foto.

Foto 43. Não há mais seleção de lugar e horário... tudo é válido.


Foto 22. Há dois carrinhos de bebês. Repara que o bebe que está sem a mãe se

vira para olhar o outro...



Vide: http://newtonfinato.blogspot.com/2009/11/arquiteturas-do-abandono.html


ARQUITETURA DO ABANDONO OU ESPAÇO DA ESPERANÇA?


Foto: "Thuga", arquivo Newton Finato, 2005.


Hoje pela manhã estava lendo o artigo "Arquiteturas do Abandono: Os Agentes da Arquitetura" , autoria de Paula Alquati e Papola Calderón (*) e recordei de uma série de fotos que tenho arquivadas em meu computador sobre "arquitetura" de Porto Alegre.
(*) Fonte:
No referido artigo, os autores destacam o cenário do abandono de uma cidade, ilustrando que novas formas arquitetônicas estão se moldando pela crescente desigualdade social, onde os agentes diretos dessa arquitetura são as pessoas abandonadas "pelas políticas públicas, abandonados pela vida privada; pessoas sem rumo, sem chão, que vivem às margens do convencionalmente aceito, às margens de nossa arquitetura".
,.
Nós somos os arquitetos. Somos advogados-arquitetos, médicos-arquitetos, prefeitos-arquitetos, empresários-arquitetos, padeiros-arquitetos, professores-arquiteos, alunos-arqiutetos e, porque não, arquitetos-arquitetos?!
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Somos quem abandona, quem excluí e quem torna invisível essa realidade. Isso mesmo, invisível, pois ela está lá - todos os dias - sob nosso olhar. Nós fingimos não ver...
..
Nós somos a "política pública"; nós somos a "vida privada"; nós somos os responsáveis por esse cenário de exclusão, falta de compaixão e falta de amor.
;.
Estou até agora me perguntando se o que tenho feito é suficiente e o que me diria o casal acima sobre a "arquitetura do amor", a "arquitetura da vida" e, principalmente, a "arquitetura do abandono".
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Olhem com atenção a foto acima. "Arquitetura" de Porto Alegre, 2005. É uma cena real.
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Abandonados por nós, sim.
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Mas, naquele olhar e naquele abraço há uma arquitetura do amor, da vida... da esperança!
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Forte Abraço,
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Newton Finato.


Fonte: http://newtonfinato.blogspot.com/2009/11/arquiteturas-do-abandono.html



O que são arquiteturas do abandono?

As arquiteturas do abandono compreendem desde edificações desabitadas, ruínas, restos de construção como também favelas, resíduos, sujeitos excluídos e tudo que até o desprendimento da matéria poderá nos levar a sentir e a pensar.
Num primeiro momento, apenas uma casa abandonada, em qualquer lugar, vizinha a tantas outras, nossa vizinha. Por ela, passamos todos os dias, caminhamos pela rua, a qual também acumula a sujeira, os restos, o capim. Tudo ao redor dessa casa, saindo pelas frestas, ruindo o reboco. A casa lar que antes abrigava uma família, agora se abre aos desabrigados, aos vagabundos, aos bandidos. Abandona-se ao bando.
Uma fábrica abandonada ou uma fábrica que abandonou muitos, uma enorme massa construída, onde o trabalho parou, mas sente-se ainda o movimento dos operários e o som das máquinas. Das máquinas enferrujadas que não produzem mais nada, apenas as carcaças envoltas em teias de aranha, recoberta por muita poeira. A poeira que entra pela boca, que resseca, que nos cega a vista, que esfuma. Fábrica abandonada por todos, mas que deixa toda a sujeira para trás, dos restos radioativos que podem provocar doenças, até os resíduos que servem de ganha pão para outros. Tudo arruinando e curando: fábrica, máquinas, resíduos, pessoas.
Todo o resíduo e entulho podem escorrer, migrar de um lugar para outro, pingar, deixar-se levar, contaminar o que não é abandonado, assim como o movimento de abandonar, de deixar alguma coisa em detrimento de outra. No edifício, a função vai embora e fica a forma abandonada.
Matar ou curar. Finito e infinito ao mesmo tempo. O tempo dos abandonos pode ser longo como o de uma ruína ou rápido como o de uma implosão. Difícil de ser medido e quantificado. Tudo pode ocorrer numa fração de segundos ou lentamente, como se não passasse de uma longa espera. Abandonar é largar a deterioração ao apodrecimento, ao mofo.
Também um resto de parede que teima em ficar de pé, que teima em permanecer. Mesmo com a chuva e o vento que lavam, dentro e fora, teimem em abatê-la. Uma ruína, um resto arruinado, não aquela ruína histórica, mas uma ruína fruto da supressão da própria história. Uma superfície arenosa e abandonada, transformada em deserto em meio à vida cotidiana das cidades.
Uma cidade é repleta de abandonos, por todos os lados, e de abandonados também. Eles estão ali perambulando pelas ruas, pelas calçadas, adentrando edifícios abandonados, encontrando-se, cara a cara conosco, Ás vezes desviamos, pulamos sobre eles, os abandonados cheiram mal, faltam-lhes dentes, e todos os objetos de consumo que tanto ansiamos.
O campo de ação das arquiteturas do abandono é amplo e, muitas vezes, caótico, abarca a matéria e a imatéria. Abandonamos materialidades, prédios, ruínas, restos, objetos, coisas, tudo o que possamos tocar, roubar, quebrar ou assassinar. Tudo muito elementar, muito óbvio.
No entanto, abandonos são também imateriais, do campo, do que não podemos mensurar. O abandono imaterial é do campo dos sentidos, dos desejos ou das sensações. Só há abandono material, porque há abandono imaterial, um se alimenta do outro. É corpo, é alma. As arquiteturas materiais do abandono podem ser as forças que nos sacodem para os abandonos imateriais. Como nas artes visuais ou na música, que atravessam nossos corpos. Abandonos também são capazes de desencarnar dos corpos arquitetônicos e habitar a fronteira, o escape, a fuligem.
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