Foto 14 é um gritante contraste entre os “poderes”. (amigo vs. MC Donald’s).

Foto 22. Há dois carrinhos de bebês. Repara que o bebe que está sem a mãe se
Vide: http://newtonfinato.blogspot.com/2009/11/arquiteturas-do-abandono.html
Foto 14 é um gritante contraste entre os “poderes”. (amigo vs. MC Donald’s).
Foto 22. Há dois carrinhos de bebês. Repara que o bebe que está sem a mãe se
Vide: http://newtonfinato.blogspot.com/2009/11/arquiteturas-do-abandono.html
[Veja o video e leia o texto, ou leia o texto e veja o video, ou faça isso tudo junto] Texto apresentado no III Coloquio Internacional de Educação e Contemporaneidades, no dia 19 de junho de 2009 - Corpografias
Amar
Que pode uma criatura senão,senão entre criaturas, amar?amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amorososozinho, em rotação universal, senãorodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor a procura medrosa,paciente, de mais e mais amor.Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossaamar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
(ANDRADE C. D., 1983, p. 262)
Toda casa pode querer separar-se, como um casal, que se deixa, um abandona o outro, desamar. O sofrimento por desamor é como a flechada do cúpido – a criança bochechuda, armada com arco e flecha, e com os olhos vendados – acertando um amor cego, pelo equivocado ou pelo correspondido. Talvez por isso se expliquem a adoração por determinadas arquiteturas e o asco por outras, a patrimonialização ou o abandono. Assim como Freud comparou o momento do amor com a hipnose, e por isso com certo estado de loucura transitória.
Porque dói tanto o abandono amoroso? Talvez porque projetemos inconscientemente nossas expectativas, nossas idealizações junto ao ser amado. Quando abandonamos uma arquitetura estamos perdendo um pouco de nós mesmos. A energia que antes depositávamos naquele edifício, esta em queda livre, e acaba por se converter em dor, solidão ou angustia. Depois, desse tempo, já reterritorializados poderemos então depositar nosso amor, mas primeiro é preciso lamber as feridas e retomar a energia, para que as forças de potência amorosa surjam novamente.
Mas, lembrando Schopenhauer, o amor não é cego, ele tem algo de animal, de perpetuação das espécies. Mesmo existindo diversas formas e amar e desamar. O amor a família, aos amigos, ao trabalho, aos estudos, as bens matériais, as arquiteturas. E muitos que sofrem pelo desamor de seus familiares, ou por suas perdas no trabalho ou não queiram tal morada. Todo esse sofrimento amoroso é o que da forças e transforma em maior medida as coisas, a própria arquitetura.
O amor e o desamor é um momento de loucura, andam juntos e separados aos mesmo tempo, todo o mundo real se apresenta sob sentidos diferentes, tudo se enche de paixões e indiferenças. Loucos de amor, embriagados por alguns instantes, novas linhas de fuga se apresentam, desaparecemos na existência do outro, impregnados por um sentimento inalcançável.
É um amor fati, inevitável, amor ao justo e ao injusto, o próprio amor e o desamor, indiferente ao sofrimento. Nada é futuro, nem passado. É algo incondicional a vida, mesmo no que ela tem de mais estranho, de mais terrível, de mais difícil de ser enfrentado.
Amor fati é uma atitude estética diante dos abandonos, um mundo de transformação de dor em beleza, de alegria em arte. Não significa que não possa haver um pessimismo diante da vida, de um abandono, mas esse ceticismo é pensando por Nietzsche como um pessimismo da força, ou seja, um pessimismo afirmativo, inconformado e, sobretudo, um pessimismo destruidor e, ao mesmo tempo, criador.
Em Carlos Drummond de Andrade, encontramos a tradução do peso em leveza, do inabitado em habitado, é o que podemos chamar de amor fati, um amor que ama ate o ódio, um amor que ama até a falta de amor.
Na estética de Nietzsche, a arte e, no nosso caso, os abandonos, são um modo de intensificar a vida em todos os seus aspectos, desde os mais dolorosos até os mais lúdicos e prazerosos. A arte agradece ate mesmo o que há de feio, grosseiro e incompreensível na vida, agradece e torna bela até a morte, a degradação, o medo. Para Nietzsche, a arte está além do bem e do mal, além do pessimismo e do otimismo, e, em todos os tempos mais difíceis, é o que faz com que a vida seja digna de ser vivida (NIETZSCHE F. , 2002).
Beleza, nesse período do pensamento de Nietzsche, é a afirmação da efemeridade, da finitude, do corpo, do desejo. É um principio essencialmente arraigado aos aspectos necessários do mundo: morte, dor, alegria, prazer. É o próprio caráter do que é inevitável que passa a ser entendido como belo, porque a beleza abarca agora o monstruoso. A medida e o caos são apenas aspectos diferentes de uma mesma força.
Trata-se então embriagar-se com a própria vida e não de transcendê-la, de amar os abandonos e não de fugir deles. Na visão nietzcheana, os gregos talvez soubessem muito bem cantar e dizer com Drummond, que o ser amoroso, a coisa, a arquitetura, sozinha, em rotação universal, não pode outra coisa, senão amar e desamar.
Fragmento do texto de qualificação da tese de doutoramento: Arquiteturas do Abandono, desenvolvida junto ao PROPAR/UFRGS, orientada pelo Prof. Fernando Fuão e qualificada no dia 18 de junho de 2009.